Capítulo 4 – De onde vieram os anabatistas?

Eles vieram “de parte alguma”. Direto da idade das trevas, saídos das incrivelmente corruptas igrejas estatais, os anabatistas (Ludwig Keller e E. H. Broadbent não concordam com isso) apareceram como um movimento absolutamente novo e diferente.
Estavam eles relacionados de alguma forma com os cristãos primitivos?
Não, não estavam. Os primeiros cristãos eram judeus, gregos e latinos que vestiam túnicas. Os anabatistas não. Eles eram europeus do norte com seus chapéus negros e calças de lã.
Os anabatistas, mesmo respeitando a história dos primeiros cristãos, não tiveram o intento de “reproduzir” exatamente o cristianismo deles. Afastados por milhares de quilometros e outros milhares de anos, tinham pouco em comum com eles, exceto o Novo Testamento e o segredo de sua grande força.
Uma vez que tive isso ficou claro na minha mente, iniciei a ver essas coisas na sucessão histórica:

Os cristãos judeus
Depois do Pentecostes, os judeus de Partea, Media, Elam, Babilonia, Capadocia, e outros lugares, se uniram aos judeus da Judéia que acreditavam em Cristo. Os cristãos judios, dos quais todos podiam traçar sua árvore genealógica até Abraão, eram circunscidados e deixavam a barba conforme o costume. Eles comiam comida kosher e guardavam o sábado sagrado. Mas eles seguiam a Cristo, e o cristianismo logo rompeu os laços do judaísmo.

Os cristãos gregos
Depois da conversão de Paulo e da visita de Pedro a Cornélio, centenas, e, até milhares de gregos de toda a anterior esfera de influência de Alexandre – comerciantes gregos e advogados, doutores gregos, gregos educados, gregos dados aos pensamentos profundos, desportistas gregos, gregos idolatras e entregues a imoralidade, amos e escravos gregos… toda classe de gregos se arrependeram, creram, e receberam o batismo. Seguiram a Cristo, e não demorou muito tempo para que o cristianismo se tornasse predominantemente grego, centrado principalmente nas regiões helenisticas da Síria, Egito, e Ásia menor. Paulo escreveu suas cartas em grego, e o resto do Novo Testamento, se não originalmente concebido nessa língua, logo foi conhecido em todo o mundo da época somente em textos gregos.
O grego, o “idioma universal” e a cultura grega, “a cultura universal” daqueles tempos, deu aos cristãos um lugar dentro dos eventos que estavam ocorrendo. Mas o cristianismo logo rompeu os laços do helenismo.

Os cristãos latinos
Com o declínio da influência grega na parte oriental do império, a Roma Latina absorveu o mundo conhecido e veio a existir por si mesmo. Os judeus de Roma tinha testemunhado o nascimento do cristianismo em Jerusalém. Talvez foram eles ou podem ter sido outros também, os primeiros missionários, os que o levaram o cristianismo para Itália e para o norte da África. Seja como for, não passou muito tempo até que milhares de latinos de mente lúcida, europeus de coração, e, como os gregos, incircuncisos, se unissem aos judeus e aos gregos para seguir a Cristo. Do meio desses cristãos latinos, muitos radicados em Cártago e em Roma, vieram pensadores inspirados tais como o bispo Clemente de Roma, Marcos Minucio Félix, e Tertuliano. Os cristãos latinos levaram o evangelho até as divisas do Império Romano, a aos celtas na Britânia, Irlanda, e Ibéria (Espanha e Portugal), aos gauleses, no que depois se transformou na França, e as tribos celticas que viviam nos Alpes e mais adiante no vale do rio Danubio. Mas o cristianismo logo rompeu os laços do Império Romano.

Os cristãos alemães
Aproximadamente no ano 1800 a.C. (mais ou menos no tempo em de Jacó fugiu para Padan-aram), pequenos clãs de famílias sairam da Mesopotania e do vale do rio Indo, e passaram através do norte da Pérsia e Europa central, para chegar às costas do Mar do Norte. Eles chamavam a si mesmos de Teutsch (germanos ou alemães).
Os alemães viviam uma vida selvagem, cultivando a terra, plantando cereais, e caçando, para sobreviver na vida. Os “índios da Europa,” floreceram nos bosques frios e nas terras úmidas ao largo da costa maritíma. Creceram rápidamente em número, avançando sempre para o sul, até que habitaram a Floresta Negra e as montanhas da Suábia. Eles foram empurraram as tribos do norte (os vikings) para ocupar a Escandinavia, no oeste a Inglaterra, no leste a Rússia, e, eventualmente, até o sul a Italia e a Asia menor.
Estes alemães não tinham gosto pela cultura grega nem latina.
Eles destruiram templos, assasinavam brutalmente, e tomavam as crianças como parte de seu tesouro de guerra. Através desta prática, involuntariamente, trouxeram para casa algo que mudou seus caminhos para sempre.
Em uma ronda que fizeram ao sul, no tempo de Constantino o Grande, os homens alemães capturaram um jovem capadociano chamado Ulfilas. Ele acreditava em Cristo.
Diferentemente da maioria dos cativos antes dele, Ulfilas não se contaminou com os costumes bárbaros. Levado ao norte pelo caminho das montanhas balcânicas, ele cruzou o rio Danúbio com seus capturadores e se encontrou fora das divisas do Império Romano – fora, na selva, com um povo selvagem; mas ele não perdeu o ânimo. Ele aprendeu germano/alemão e se empenhou em contar-lhes acerca de Cristo. Homens rudes com seus cabelos compridos e loiros ao redor de seus ombros e com suas grandes barbas, e mulheres robustas sentadas ao redor do fogo, o escutavam fascinados.
Seus corações responderam a história de Cristo. Um por um, eles creram, se arrependeram dos seus pecados, e começaram a seguir a Cristo eles mesmos. Ulfilas os batizou na água. Logo, um núcleo de cristãos se desenvolveu entre a gente selvagem ao norte do Danúbio. Ulfilas, usando o grego e o latim que conhecia, inventou para eles um alfabeto germânico. Ele lhes ensinou a ler e traduziu, primero os evangelhos, logo depois as cartas de Paulo, e finalmente, a maior parte do Antigo Testamento, para o alemão.
No ano de 341 d.C. Ulfilas viajou para o sul, para sua terra natal na Ásia “civilizada.” Em Nicomédia, a cidade onde vivia Eusebio, um velho bispo, ele contou aos cristãos, sobre os alemães que haviam se convertido para seguir a Cristo. Eusebio ordenou a Ulfilas para ser um apóstolo dos germanos.

Os germanos viram católicos
O movimento cristão de Ulfilas não sobreviveu. Já durante o periodo de sua vida, os cristãos latinos e gregos do sul haviam ficado poderosos. O que eles criam se transformou quase numa religião nacional debaixo do reinado de Constantino o Grande. Constantino tratou de unir a todos os cristãos debaixo de uma só organização eclesiástica que cooperaria com o governo Romano. Ele convocou concílios para estabelecer regras e definir a doutrina católica (aceitada universalmente como genuina). Nestes concilios, Ulfilas e os cristãos germânicos foram classificados como hereges.
Ulfilas ensinava que Cristo era Dios Filho, mas não exatamente igual a Deus o Pai em todos os atributos. E ensinava que o Espírito Santo estava subordinado a Deus. Ou seja, Ulfilas pregava um cristianismo tal como se conhecia desde antes dos concílios de Constantino. Mas agora já não era mais considerado “católico.”
O novo “cristianismo” católico primeiro chegou a Alemanha através de um homem chamado Remígio. Remígio era um jovem latino
que amava estudar e discursar bem. Com a idade de vinte e dois anos, se tornou o bispo da congregação católica de Reims, que fica atualmente na França.
Durante o tempo de Remígio, muitos germanos seguiram um líder despiadado chamado Clóvis, que tinha uma esposa cristã.
Clóvis conheceu a Remigio e a congregação dele em Reims, mas ele não estava interessado no cristianismo. Ignorava as frequentes tentativas de Remigio de “converte-lo” até que ocurreram duas coisas que o fizeram mudar de opinião: seu filho enfermo foi curado, e ele ganhou uma grande vitória sobre os inimigos em Zulpich, depois de haver orado, como último recurso, ao Deus dos cristãos. Então Clovis quis ser batizado.
Clovis foi a Reims para que Remigio batizasse imediatamente ele, seus chefes guerreiros, e seus mais de três mil soldados.
As igrejas católicas começaram a surgir em todas as areas dominadas por Clóvis. Tribo após tribo caiu debaixo da espada “cristiana” dele, e milhares foram batizados em massa. Os missionarios iam atrás e em alguns lugares iam afrente do exército na tarefa de conversão. Gal de Down, um missionário católico irlandês, chegou a Suiça no ano 612. Construiu uma missão em Sankt Gallen. Bonifacio (wynfrith de Wessex) o seguiu no ano 716, batizando outros milhares pagãos como os que haviam pertencido ao que tinha sobrado das congregacões cristãs não-católicas de Ulfilas. Com isto Bonifacio limpou o que ele chamava de um “cristianismo fortuito” propagado por “cléricos hereges”.
Bonifacio ungiu um líder germnico, Pepino o breve, para reinar sobre seus convertidos alemães. E então para assegurar-se que o reinado de Pepino fosse católico, Bonifacio o levou para ser coroado pelo bispo Esteban de Roma.

A igresia da idade das trevas
Pepino o breve tinha um destacado filho chamado Carlos, depois conhecido como Carlos Magno. Carlos cresceu falando o antigo
alto-alemão, uma língua similar ao dutch da Pennsylvania dos Amish de hoje em dia. Foi batizado na igreja católica e amava guerrear.
Quando se tornou o rei, resolveu converter e civilizar todos os restantes "indios da Europa": as tribos germanas ao leste do rio Reno.
Carlos lutou e batizou valentemente. Ele gostava do negócios. Mas os seus convertidos nunca lhe entenderam como haviam entendido a Ulfilas.

Eles não podiam ler o Novo Testamento em latim que ele reestabeleceu obrigatoriamente no lugar das traduções de Ulfilas. Os convertidos diziam o Pai Nosso em latim (como a lei o demandava), mas não sabiam o que significava. Aceitaram o batismo por derramamento, mas lhes parecia que era um ritual mágico. Comiam
do pão sagrado, mas não entendiam o que o sacerdote dizia, quem consagrava o pão com palavras que lhes soavam como um conjuro mistico. Na Saxônia, onde alguns alemães queriam pensar antes de aceitar estas tradições católicas, Carlos levou a cabo um massacre no qual matou a 4.500 pessoas. Ele deixou claro seu ponto.
Em novembro do ano de 800, Carlos visitou o seu amigo Leão, o bispo de Roma. Por este tempo, o bispo de Roma ainda estava debaixo da cobertura da igreja grega em Bizancio, mas estava descontente.
León e Carlos começaram a conversar acerca disto e lhes ocorreu uma grande idea.
O dia de natal, Carlos e Leão entraram na igreja de São Pedro ubicada em meio do povo. Milhares de pessoas haviam vindo para o culto. A atmosfera festiva era justamente apropiada para que Leão ungisse e coroasse a Carlos como o novo imperador romano – Carlos Magno – e para que Carlos tomasse a Leão como sua cabeça
religiosa para o estado.
Um império cristão! Um império santo romano! O bispo e o guerreiro, igreja e estado se tornaram um no natal do ano 800, e uma divisão entre a antiga igreja católica grega e a nova igreja católica romana foi inevitavel.
Carlos se sentia bem em seu novo papel como imperador romano, mesmo que confessando modestamente que se tivesse sabido o que Leão iria fazer, nunca teria posto um pé na igreja de São Pedro.
Leão, ao mesmo tempo, se regozijou na sua liberação dos bizantinos e falsificou um documento para comprovar que Constantino sempre havia querido que o bispo de Roma fosse a cabeça da Cristiandade. As bodas do Imperio Romano e da Igreja Católica Romana correu de maneira todavia mais segura as cortinas do teatro da Idade das Trevas sobre toda Europa.

O movimento cristão entre os judeus havia sido glorioso. Entre os gregos, parece que o foi ainda mais. Os cristãos latinos haviam levado o evangelho ao oeste e ao norte. Muitos alemães haviam se convertido. Agora, porém, este “Cristianismo” da Idade das Trevas absorveu a todos e era muito pior que não ter nenhum Cristianismo.
Era o lobo do barbarismo europeu nortenho vestido da ovelha do Evangelho de Cristo. Que disfarçe tão poderoso! A igreja do obscurantismo bem que poderia ter sido o fim do Cristianismo – se não houvesse sido pela preservação do Novo Testamento.

Os cristãos anabatistas
Afortunadamente, nem todos os alemães convertidos ao Catolicismo Romano se dedicaram a caçar porcos selvagens e a beber cerveja.
A igreja, tão corrupta como estava, teve sucesso em atrair a alguns jovens alemães a uma vida religiosa (os monasterios e conventos.) Ali eles aprendiam o latim e alguns poucos deles estudaram o Novo Testamento a principios dos anos 1500s.
Aqui um monge alemão (Martinho Lutero de Wittenberg), aqui um jovem sacerdote (Menno Simons de Witmarsum), aqui, ali e aculá, com a invencão da imprensa, os alemães com educacão formal começaram a ler as palavras de Cristo e dos apóstolos, palavras que os agitavam, despertavam e/ou alarmavam. Repentinamente,
se deram conta de que haviam sido defraudados (não tinham ensinado a mudança completa) pelos missionários que os haviam “convertido.” Repentinamente, ficou bastante claro que haviam sido “cristãos” por já mais ou menos mil anos, sem nem siquer conhecer o verdadeiro cristianismo! Martinho Lutero, Ulrico Zwinglio, Baltasar Hubmaier, Hans Denck, Michael Sattler, e Pilgram Marpeck – alemão após alemão se levantou para o desafio do momento de escandalo.
Tratados poderosos, tratados em latim no principio, mas depois tratados em alemão, e traduções do Novo Testamento para o alemão, cundían já por toda a população, da Suiça ao Mar do Norte e da Escandinavia até a Prússia, como chama de fogo. A igreja da Idade Escura havia subestimado o efeito que o Novo Testamento
podia ter sobre uma populacão ignorante.
Já não podiam ser controlados. Nada podia já enganar-lhes com histórias fantásticas acerca da virgem, dos santos, o bautismo, e a missa. Uma vez que a Bíblia estava impresa e os alemães a tinham em suas mãos, os dias escuros da igreja “católica” apóstata no norte de Europa, haviam terminado.
Lutero ficou engatado num dado momento e não seguiu a Jesus todo o caminho. Nem tampouco o fez Zwinglio. Mas uns poucos anos depois que o Novo Testamento golpeara ao mundo alemão, mais de centenas de milhares de alemães já estavam prosseguindo atrás da meta do supremo chamamento de Cristo e se libertavam da escuridão. Por seguir o exemplo de Cristo e batizar unicamente a adultos convertidos, as pessoas os começarm a chamar de anabatistas (rebatizadores.)
Neste livro, poderás conhecer-los e considerar o que eles escreveram…